• Matias Pinto

AMAR PROTEGE O CORAÇÃO

Updated: Dec 6, 2019

Salomão Sequerra Amram*

No mundo de hoje competitivo, apressado, sem ideologias, e muitas vezes sem Deus, em que o homem esquece o primado do espírito, em que as estruturas sociais tradicionais das gerações que nos antecederam tendem a desaparecer, as alterações espirituais emocionais são cada vez mais relevantes no desencadear de doenças cardíacas, por diminuição das defesas imunitárias e por aumento do stress. Se o indivíduo pode, alterado pela educação para a saúde, pelas campanhas de prevenção, para eliminar até certo ponto os fatores de risco relacionados com a alimentação, sedentarismo, o consumo de tabaco, álcool ou drogas, mais difícil se torna controlar os sentimentos e as emoções negativas, a sensação de solidão e a sensação de falta de amor.

Assim, deveria, a par dos conselhos sobre como controlar os fatores de risco tradicionais, ser feita uma educação para a saúde afetiva.

Todos precisamos de laços afetivos. Todo o ser humano sofre com a ideia da sua morte, da imortalidade da sua vida, do esquecimento da sua passagem por este mundo. O indivíduo só sobrevive na memória dos outros. É essa a única imortalidade em termos terrenos. As nossas memórias têm de ser transmitidas aos outros.

Mas para que possamos minorar o stress que o simples facto de viver acarreta é necessário que as memórias que legarmos sejam positivas, e que transmitamos algo de bom.


Dizia Albert Einstein que se devia substituir a reação em cadeia dos átomos pela reação em cadeia da bondade.

E Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, ontem entre nós na Gulbenkian escreveu: “Eu vim para aprender o sentido da partilha e da permuta”.

Bondade, partilha, permuta. Ideais que exigem a procura de um estilo de vida mais sociável e com mais amor. Mas todo o tipo de amor causa bem-estar e liberta endorfinas, um revigorante natural que relaxa e traz bem-estar a todo o organismo, contribuindo assim para a saúde cardiovascular.

A solidão, quando não procurada, por uma razão positiva como a do estudo, a criação, o conhecimento de si próprio, tem efeitos nefastos sobre a saúde. Os solitários, regra geral, bebem e fumam mais, comem pior e assumem mais riscos desnecessários. E a solidão, mercê da moderna evolução das sociedades tem tendência a aumentar.

Pesquisas científicas, estudos epidemiológicos, revelam que a intimidade, o apoio emocional e as relações familiares e sociais são tão - ou mais – importantes para a saúde do coração quanto o exercício físico e a dieta saudável, levando a concluir que o coração é, em grande parte, negativamente afeitado pelas emoções que levam à depressão. 

A maternidade e o ser mãe conferem à mulher capacidades afetivas únicas que protegem o seu coração e contribuem para a sua conhecida longevidade.

Contudo há algo que não pode ser evitado – o stress. Mesmo quando completamente relaxados e a dormir estamos em stress.

Embora não o possamos evitar, podemos enfrentá-lo e até disfrutá-lo, aprendendo mais acerca das suas causas e ajustando a nossa filosofia de vida ao seu melhor conhecimento.

A fonte mais frequente de stress mental e emocional, e também mais antiga, reside na necessidade de tomar uma decisão e escolher entre alternativas.

Qualquer alternativa ou direção é melhor do que nenhuma - já Séneca dizia: “Quem não conhece o seu porto de destino, não tem ventos a favorecê-lo.” Devemos procurar encontrar o nosso próprio nível de stress, ou seja aa velocidade a que podemos correr para alcançar o nosso objetivo. 

Devemos antes estar seguros que tanto o nível de stress como o próprio objetivo são pessoais e não impostos pela sociedade: só o próprio pode saber o que quer e a velocidade a que o pode alcançar. Não faz sentido forçar uma tartaruga a correr como um cavalo de corrida, ou impedir que o cavalo corra mais rápido que a tartaruga só por solidariedade. Hans Selye resumiu em 2 linhas resultados dos seus pensamentos e investigação sobre o stress: “Luta para alcançar a tua máxima aspiração realizável, mas não tentes resistir em vão”.

Assim será mais fácil conquistar o tempo e espaço necessários para uma vida mais rica sob o ponto de vista espiritual e emocional e podermos desse modo preservar a saúde do nosso coração, que sempre bateu, e baterá, em parte, ao ritmo das nossas emoções.

Estas foram umas breves reflexões, que, como Cardiologista dedicado à Medicina Preventiva, achei por bem transmitir-lhes.


*Catedrático de Cardiologia Jubilado na Faculdade de Medicina de Lisboa



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