Clube de leitura - Jorge Luís Borges



Dedicatória abrangente Dedico as citações que seguem:

  • Às pessoas que detestam o escritor Jorge Luis Borges;

  • Às pessoas que não conhecem o escritor Jorge Luis Borges;

  • Às pessoas que gostariam de conhecer o escritor Jorge Luis Borges;

  • Às pessoas indecisas acerca do escritor Jorge Luis Borges;

  • Às pessoas que conhecem pouco o escritor Jorge Luis Borges;

  • Às pessoas que gostam do escritor Jorge Luis Borges; e

  • Às pessoas que amam o escritor Jorge Luis Borges.

Então, e pela ordem em que se encontram no livro FICÇÕES, da Editora Teorema, eis as citações: «Conjectura-se que este brave new world seja obra de uma sociedade secreta de astrónomos, de biólogos, de engenheiros, de metafísicos, de poetas, de químicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de geómetras... dirigidos por um obscuro homem de génio. Abundam indivíduos que dominam estas disciplinas diversas, mas não os capazes de invenção e menos ainda os capazes de subordinar a invenção a um rigoroso plano sistemático.» (Em: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius) «Não há exercício intelectual que por fim não seja inútil. Uma doutrina filosófica ao princípio é uma descrição verosímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo ─ quando não um parágrafo ou um nome ─ da história da filosofia. Na literatura, esta capacidade final é ainda mais notória. O Quixote ─ disse-me Menard ─ foi acima de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior.» (Em: Pierre Menard, autor do Quixote) «Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumir-se na lama sagrada, mas daí a poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que a sua pátria era uma dessas infinitas aldeias que ficam rio acima, no flanco violento da montanha, onde a língua zenda não está contaminada de grego e onde é rara a lepra.» (Em: As ruínas circulares) «A Companhia, com uma modéstia divina, evita toda a publicidade. Os seus agentes, como é natural, são secretos; as ordens que distribui continuamente (quiçá incessantemente) não diferem das que prodigam os impostores.» (Em: A lotaria na Babilónia) «Quain costumava argumentar que os leitores eram uma espécie já extinta. Não há europeu (arrazoava ele) que não seja um escritor, em potência ou em acto. Afirmava também que das diversas felicidades que pode fornecer a literatura, a mais elevada era a invenção. Já que nem todos são capazes dessa felicidade, muitos terão de se contentar com simulacros.» (Em: Análise da obra de Herbert Quain) «Outros, pelo contrário, acreditaram que a prioridade era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com tédio um volume e condenavam estantes inteiras: ao seu furor higiénico e ascético deve-se a insensata perda de milhões de livros.» (Em: A Biblioteca de Babel) «Ao contrário de Newton e de Schopenhauer, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros, eu, e não você; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; noutro, você, ao atravessar o jardim, deu comigo morto; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.» (Em: O jardim dos caminhos que se bifurcam) «Tinha aprendido sem esforço inglês, francês, português e latim. Suspeito, no entanto, de que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos.» (Em: Funes ou a memória) «O que faz um homem é como se o fizessem todos os homens. Por isso não é injusto que uma desobediência num jardim contamine toda a humanidade; por isso não é injusto que a crucificação de um único judeu baste para a salvar. Schopenhauer porventura tem razão: eu sou os outros, qualquer homem é todos os homens. Shakespeare é de algum modo o miserável John Vincent Moon.» (Em: A forma da espada) «Então Nolan concebeu um estranho projecto. A Irlanda idolatrava Kilpatrick; a mais ténue suspeita da sua vileza comprometeria a rebelião; Nolan propôs um plano que fez da execução do traidor o instrumento para a emancipação da pátria. Sugeriu que o condenado morresse às mãos de um assassino desconhecido, em circunstâncias deliberadamente dramáticas, que se gravassem na imaginação popular e que apressassem a rebelião. Kilpatrick jurou colaborar nesse projecto, que lhe dava a ocasião de se redimir e que a sua morte rubricaria.» (Em: Tema do traidor e do herói) «Lönnrot avançou pelo meio dos eucaliptos, pisando confundidas gerações de quebradas folhas rígidas. Vista de perto, a casa da quinta de Triste-le-Roy abundava em inúteis simetrias e em repetições obsessivas: a uma Diana glacial num nicho tenebroso correspondia num segundo nicho outra Diana; um balcão reflectia-se noutro balcão; escadarias duplas abriam-se em dupla balaustrada. Um Hermes de duas caras projectava uma sombra monstruosa.» (Em: A morte e a bússola) «Pela madrugada, sonhou que se tinha escondido numa das naves da biblioteca de Clementinum. Um bibliotecário de óculos pretos perguntou-lhe: O que procura? Hladik respondeu-lhe: Procuro Deus. O bibliotecário disse-lhe: Deus está numa das letras de uma das páginas de um dos quatrocentos mil tomos do Clementinum. Os meus pais e os pais dos meus pais procuraram essa letra; eu fiquei cego procurando-a. Tirou os óculos e Hladik viu-lhe os olhos, que estavam mortos.» (Em: O milagre secreto) «Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O Verbo tinha-se rebaixado à condição de mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se à condição de delator (o pior crime que a infâmia suporta) e a ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da Terra correspondem às formas do Céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; judas reflecte de qualquer modo Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a Reprovação.» (Em: Três versões de Judas) «Cumprida a sua tarefa de justiceiro, agora não era ninguém. Melhor dizendo, era o outro: não tinha destino na Terra e matara um homem.» (Em: O fim) «O esquisito é que o Segredo não se tenha perdido há muito tempo; apesar das vicissitudes do globo, a despeito das guerras e dos êxodos, chega, tremendamente, a todos os fiéis. Alguém não hesitou em afirmar que já é instintivo.» (Em: A seita da Fénix) «No chão, encostado ao balcão, acocorava-se, imóvel como uma coisa, um homem muito velho. Os muitos anos haviam-no reduzido e polido como fazem as águas a uma pedra ou as gerações dos homens a um provérbio. Era escuro, pequeno e ressequido, e estava como que fora do tempo, numa eternidade. » (Em: O Sul) Que as citações transcritas tenham sido inspiradoras e convidem à leitura deste importante Autor. Saudações literárias, Carlos Ferreira

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