1989-5 /3 | O Sufismo




FICHAS ESPIRAL — Centro para a divulgação de alternativas

MAIO 89 | N.º 3

ESPIRITUALISMO

O SUFISMO

Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual cujas origens nunca foram traçadas nem datadas; nem eles mesmos se interessam muito por esse tipo de pesquisa, contentando-se em mostrar a ocorrência da sua maneira de pensar em diferentes regiões e períodos. Conquanto sejam, de ordinário, erroneamente tomados por uma seita muçulmana, os sufis sentem-se à vontade em todas as religiões: exatamente como os "pedreiros-livres e aceitos", abrem diante de si, em sua loja, qualquer livro sagrado — seja a Bíblia, seja o Cotão, seja a Torá — aceito pelo Estado temporal. Se chamam ao islamismo a "casca" do sufismo, é porque o sufismo, para eles, constitui o ensino secreto dentro de todas as religiões. Não obstante, segundo Ali el-Hujwiri, escritor sufista primitivo e autorizado, o próprio profeta Maomé disse: "Aquele que ouve a voz do povo sufista e não diz aamin (amém) é lembrado na presença de Deus como um dos insensatos". Numerosas outras tradições o associam aos sufis, e foi em estilo sufista que ele ordenou a seus seguidores que respeitassem todos os Povos do Livro, referindo-se dessa maneira aos povos que respeitavam as próprias escrituras sagradas — expressão usada mais tarde para incluir os zoroastrianos.

Tampouco são os sufis uma seita, visto que não acatam nenhum dogma religioso, por mais insignificante que seja, nem se utilizam de nenhum local regular de culto. Não têm nenhuma cidade sagrada, nenhuma organização monástica, nenhum instrumento religioso. Não gostam sequer que lhes atribuam alguma designação genérica que possa constrangê-los à conformidade doutrinária. "Sufi" não passa de um apelido, como "quacre", que eles aceitam com bom humor. Referem-se a si mesmos como "nós amigos" ou "gente como nós", e reconhecem-se uns aos outros por certos talentos, hábitos ou qualidades de pensamento naturais. As escolas sufistas reuniram-se, com efeito, à volta de professores particulares, mas não há graduação, e elas existem apenas para a conveniência dos que trabalham com a intenção de aprimorar os estudos pela estreita associação com outros sufis. A assinatura sufista característica encontra-se numa literatura amplamente dispersa desde, pelo menos, o segundo milênio antes de Cristo, e se bem o impacto óbvio dos sufis sobre a civilização tenha ocorrido entre o oitavo e o décimo oitavo séculos, eles continuam ativos como sempre. O seu número chega a uns cinquenta milhões. O que os torna um objeto tão difícil de discussão é que o seu reconhecimento mútuo não pode ser explicado em termos morais ou psicológicos comuns — quem quer que o compreenda é um sufi. Posto que se possa aguçar a percepção dessa qualidade secreta ou desse instinto pelo íntimo contato com sufis experientes, não existem graus hierárquicos entre eles, mas apenas o reconhecimento geral, tácito, da maior ou menor capacidade de um colega.

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Os sufis respeitam os rituais da religião na medida em que estes concorrem para a harmonia social, mas ampliam a base doutrinária da religião onde quer que seja possível e definem-lhe os mitos num sentido finais elevado — por exemplo, explicando os anjos como representações das faculdades superiores do homem. Oferecem ao devoto um "jardim secreto" para o cultivo da sua compreensão, mas nunca exigem dele que se torne monge, monja ou eremita, como acontece com os místicos mais convencionais; e mais tarde, afirmam-se iluminados pela experiência real — "quem prova, sabe" — e não pela discussão filosófica. A mais antiga teoria de evolução consciente que se conhece é de origem sufista, mas embora muito citada por darwinianos na grande controvérsia do século XIX, aplica-se mais ao indivíduo do que à raça. O lento progresso da criança até alcançar a virilidade ou a feminilidade figura apenas como fase do desenvolvimento de poderes mais espetaculares, cuja força dinâmica é o amor, e não o ascetismo nem o intelecto.

"Estar no mundo mas não ser dele"

A absorção no tema do amor conduz ao êxtase, sabem-no todos os sufis. Mas enquanto os místicos cristãos consideram o êxtase como a união com Deus e, portanto, a ponto culminante da consecução religiosa, os sufis só lhe admitem o valor se ao devoto for facultado, depois do êxtase, voltar ao mundo e viver de forma que se harmonize com sua experiência.

A concentração no tema do amor e a separação entre o ser humano e sua meta foram, no início, introduzidas nas esferas militares, onde a cavalaria e o tema da busca da amada e de uma realização final produziram mais literatura e a formação de ordens de cavalaria, subsequentemente importantes no Oriente e no Ocidente.

Os sufis insistiram sempre na praticabilidade do seu ponto de vista. A metafísica, para eles, é inútil sem as ilustrações práticas do comportamento humano prudente, fornecidas pelas lendas e fábulas populares. Os cristãos contentam-se em usar Jesus como o exemplar perfeito e final do comportamento humano. Os sufis, contudo, ao mesmo tempo que o reconhecem como profeta divinamente inspirado, citam o texto do quarto Evangelho: "Eu disse: Não está escrito na vossa Lei que sois deuses?" — o que significa que juízes e profetas estão autorizados a interpretar a lei de Deus — e sustenta que essa quase divindade deveria bastar a qualquer homem ou mulher, pois não há deus senão Deus. Da mesma forma, eles recusaram o lamaísmo do Tibete e as teorias indianas da divina encarnação; e posto que acusados pelos muçulmanos ortodoxos de terem sofrido a influência do cristianismo, aceitam o Natal apenas como parábola dos poderes latentes no homem, capazes de apartá-lo dos seus irmãos não-iluminados. De idêntica maneira, consideram metafóricas as tradições sobrenaturais do Corão, nas quais só acreditam literalmente os não-iluminados. O Paraíso, por exemplo, não foi, dizem eles, experimentado por nenhum homem vivo; suas huris ("criaturas de luz") não oferecem analogia com nenhum ser humano e não se deviam imputar-lhes atributos físicos, como acontece na fábula vulgar.

"O homem comum se arrepende dos seus pecados; o eleito se arrepende da insensatez deles."

Db’l-Nun Misri

Os resultados do sistema intensamente prático dos sufis, embora muitas vezes obscuros para estranhos, que desconhecem o verdadeiro significado do sistema, encontram-se espalhados no pensamento, na arte e nos fenômenos mágico-ocultistas do Oriente e do Ocidente.

Diz-se tradicionalmente que os caminhos que levam ao pensamento sufista são quase tão variados quanto o número de sufis existentes. A religião, por exemplo, não pode ser aceite nem rejeitada de pronto, enquanto o estudioso não souber exatamente o que ela significa. A unidade essencial de toda fé religiosa não é aceite em todo o mundo, dizem os sufis, porque a maioria dos crentes não se dá conta do que é essencialmente a própria religião. Ela não tem obrigação de ser o que geralmente se presume que seja.

Para o sufi, o fanático religioso e o escarnecedor da religião são como a pessoa que acredita que a terra seja achatada, discutindo com outra para a qual a Terra é cilíndrica — nenhuma delas tem a menor experiência real do que está discutindo.

Isso revela uma diferença fundamental entre o método dos sufis e o de outros sistemas metafísicos. Acredita-se com demasiada frequência que uma pessoa tem de ser crente ou descrente, ou talvez agnóstica. Se for crente, esperará que lhe ofereçam uma fé ou um sistema que lhe pareça satisfazer o que julga serem suas necessidades. Pouca gente lhe dirá que ela talvez não compreenda quais são as suas necessidades.

A totalidade da vida não será compreendida, afiança o ensinamento sufista, se for estudada apenas pelos métodos que utilizamos na vida quotidiana. Isso, em parte, porque, embora se possa perguntar: "A que vem tudo isso?" numa sequência nominavelmente razoável de palavras, a resposta não se expressa de maneira semelhante, pois vem através da experiência e da iluminação, um instrumento capaz de avaliar uma coisa pequena não pode, necessariamente, avaliar uma grande. "Ponha em prática o seu conhecimento, pois o conhecimento sem a prática é um corpo sem vida", diz Abu Hanifa . Um cientista lhe dirá que o espaço e o tempo são a mesma coisa, ou que a matéria não é sólida, e talvez seja capaz de prová-lo por seus próprios métodos. Isso, contudo, fará pouca diferença para o seu entendimento, e nenhuma para a sua experiência do que tudo isso envolve.

A doutrina sufista é conhecida no Ocidente como o método científico do processo indutivo, no qual a subsequente ciência ocidental se baseia amplamente.

A ciência moderna, contudo, em lugar de aceitar a idéia de que a experiência era necessária em todos os ramos do pensamento humano, tomou a palavra no sentido de "experimento", em que o experimentador permanecia tanto quanto possível fora da experiência.

Do ponto de vista sufista, portanto, ao escrever estas palavras em 1268, Bacon não só lançou a ciência moderna, mas também transmitiu apenas uma porção da sabedoria em que ela poderia ter-se baseado.

O pensamento "científico" trabalhou, contínua e heroicamente, com essa tradição parcial desde aquela época. A despeito das suas raízes no trabalho dos sufis, a deterioração da tradição impediu o pesquisador científico de aproximar-se do conhecimento por meio do próprio conhecimento pela "experiência" e não só pelo "experimento".

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